A Vez do Interior

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Por Rodrigo Menegat – @rodrigomenegat

Edição: Rodrigo de Souza – @guinhosouza

O palco era modesto. O acanhado Estádio do Vale, em Novo Hamburgo, recebia a final do primeiro turno do Campeonato Gaúcho. Surpreendentemente, não entravam no gramado jogadores fardando vermelho e azul: no lugar dos grandes da capital estavam o Caxias e o Novo Hamburgo, dono da casa.

Não havia glamour algum, não havia patrocínios robustos ou estrelas em campo.  Ainda assim, a festa propiciada pelos torcedores anilados e grenás presentes não deixava dúvidas acerca da importância da partida. Finalmente, o interior protagonizava com exclusividade uma final estadual – ainda que de um mero primeiro turno, uma final.

O clima era digno do folclore futebolístico rio-grandense. Chuva forte, atmosfera tensa, marcação apertada. Jogo brigado, guerreado, peleado. Muito mais gana e disposição à qualidade técnica.

Marcação forte: típica do futebol gaúcho

Da Serra, 20 ônibus trouxeram grande número de empolgadíssimos torcedores caxienses, que empurraram sua equipe para uma boa exibição no primeiro tempo. O time exerceu o controle do jogo e tomou a iniciativa das ações, apesar de alguns sustos, que apenas evidenciavam a competência de seu goleiro, Paulo Sérgio. Esse ímpeto resultou no gol de Vanderlei, fruto de uma jogada do lateral Fabinho, aos 24 minutos. Reforçava-se ainda mais o domínio exercido pela equipe grená.

A situação pedia audácia. Antes mesmo do intervalo, o técnico da equipe alvi-azul realizou a primeira substituição. Aos 33 minutos saiu o lateral Pedrinho para a entrada do meia-atacante Claiton. Prenúncio do que aconteceria: o Caxias recuou. O Novo Hamburgo atacou.

O panorama do jogo não se alterou durante o intervalo. O Novo Hamburgo contava com uma marcação forte e adiantada, postada na linha do meio-campo, por vezes até mesmo dentro do campo do Caxias. A equipe da serra não conseguia jogar, e seus avanços limitavam-se a lançamentos longos e bolas alçadas em direção à área.

Após uns bons minutos de “abafa”, o time da casa chegou ao empate. Aos 15, depois de receber belíssimo lançamento de Claiton, Márcio Hahn cruza. Mendes, de cabeça enfaixada devido a choque ainda no primeiro tempo, desvia pelo alto e iguala o placar. E a pressão só aumentava. Tudo apontava para a virada.

Porém, o goleiro Paulo Sérgio, que já tinha sido destaque na semifinal contra o tricolor da capital, fez partida memorável. Salvou sua equipe em vários momentos. Foi responsável direto pelo resultado final de 1 x 1, que encaminhou a disputa para os pênaltis. E quer maneira melhor de um goleiro consagrar-se do que agarrando penalidades máximas? Ao defender uma bola e ver dois chutes adversários passando longe de sua meta, o camisa um pôde, junto de seus companheiros, festejar a conquista da Taça Piratini com a torcida grená ali presente.

20 ônibus deixaram a Serra para presenciar o título do Caxias

Após uma grande demonstração de raça e disposição, não seria justo questionar o mérito daqueles que chegaram até essa etapa da competição. Todavia, há de se convir: é estranho ver a dupla Gre-Nal excluída de uma partida decisiva do estadual. Entretanto, não se pode dizer que o fato é totalmente insólito e imprevisto.

Desde 1961, ano da unificação das distintas competições regionais Rio Grande do Sul afora, a disputa pela taça gaúcha é monopolizada por colorados e tricolores. Mas conforme o torneio perdeu importância para os velhos rivais, que priorizam competições nacionais e continentais, o interior dá constantes estocadas em direção ao título.

Esse fenômeno se intensificou a partir do final da década de 90. Ainda que, depois dos dois títulos quase consecutivos conquistados pelo Juventude e pelo próprio Caxias, em 98 e 2000 respectivamente, o futebol interiorano não se sagre campeão do estado, das últimas dez edições do campeonato, um time de fora da capital foi vice-campeão em sete.

Isso não quer dizer que os clubes estejam se fortalecendo – na realidade, o abismo entre grandes e pequenos aumenta ano a ano.  O que se vê são as deficiências abismais enfrentadas pelos pequenos compensadas por um respeitável espírito de luta e dedicação, tão caro a história não só do futebol como do próprio povo do Rio Grande.

Imagens: divulgação Caxias e Novo Hamburgo

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