“Não precisamos de pessoas que só queiram estar ao lado quando tudo está bem”

Entrevista com Allan Meister, head coach do Ponta Grossa Phantoms e assistente técnico da seleção brasileira de futebol americano

Por Rodrigo de Souza – @guinhosouza

Com participação no futebol americano desde 2001, Allan Meister assumiu em maio de 2011 o cargo de head coach do Ponta Grossa Phantoms. Após um início de ano desastroso, o anúncio para a comissão técnica da seleção brasileira e a classificação para os playoffs do Torneio Touchdown fizeram com que 2011 valesse o esforço do coach de 31 anos. Além de treinador, Allan é árbitro, jogador e, acima de tudo, entusiasta de um esporte que o fez até largar um casamento. Em entrevista exclusiva ao Focas Esporte Clube, Allan Meister fala sobre a temporada de 2011 do Phantoms, sobre projetos para 2012 e sobre sua chegada à seleção brasileira.

Treinador em ação contra Corinthians Steamrollers, pelo Torneio Touchdown

Rodrigo de Souza: Que balanço você faz sobre a temporada atual? O que foi bom para o time em 2011 e o que precisa melhorar para o ano que vem?

Allan Meister: Com total certeza o balanço foi positivo, devido ao segundo semestre. Esse ano encaramos uma renovação, tanto de plantel como de pensamento. Todo mundo que está envolvido no esporte, principalmente no esporte coletivo, sabe que não é do dia pra noite que o resultado aparece. Iniciamos um novo trabalho no meio do campeonato paranaense. E esse trabalho simplesmente assustou muita gente. Assim se cria expectativa do novo, que não é certeza de melhora imediata. E foi o aconteceu. Perdemos todos os jogos no campeonato. Mas essa mudança, por menor que seja, ela estava acontecendo. Muitos atletas não aguentaram essa pressão, simplesmente desistiram. Acharam que isso se tornou uma situação permanente e muitas pessoas desistiram. Tudo bem, ninguém é obrigado a ficar. Só que nós não desistimos, principalmente eu. No meio do campeonato fui cogitado para a seleção brasileira – que ainda era um projeto, nada de concreto. E só de ficar sabendo que meu nome foi cogitado, já foi um fator motivacional muito grande. Após o termino do campeonato paranaense iniciamos um trabalho direcionado, totalmente focado para a segunda competição do ano, que foi o Torneio Touchdown. Inclusive ficamos com um certo receio de entrar na competição, visto o que tinha acontecido. Mas encarei o desafio e tive apoio de 90% dos atletas e da diretoria, dentro de todas as dificuldades que ela tinha. O meu desejo e a minha opinião sempre prevaleceram. Sempre tive autonomia pra fazer o que quiser. Então isso fez com que o trabalho aparecesse antes do planejado, que foi o que aconteceu. Acho que o principal problema desse ano foi o número de jogadores disponíveis. Mesmo com todas essas adversidades preparamos muito bemm mas perdemos jogos por sobrecarga. Chega um ponto que o jogador que está batalhando dobrado – ataque e defesa – não rende como se fosse jogar só na sua posição. O jogo contra Timbó [Timbó Rhinos], em Ponta Grossa, todos que nos acompanham desde o início puderam perceber que ali foi a evolução do que iniciamos no começo do ano. Um time mais entrosado, porque tínhamos um grande problema no entrosamento do ataque. Simplesmente trocamos o quarterback – que é o coração do ataque e a posição mais difícil de pegar o entrosamento. Mas, em linhas gerais, foi um balanço extremamente positivo, principalmente para a maturidade do time e para essa renovação que estamos passando. Chegou a hora da renovação. Muita gente já não tem o ritmo de antes e tem que readaptar o seu estilo e tempo de jogo. E os novos valores, que estão aparecendo agora, é que serão o nosso futuro, que já começa no Campeonato Paranaense de 2012, inclusive. Vamos colocar muita gente nova para jogar, porque é a oportunidade que eles têm para pegar experiência.

R: Já tem algum amistoso preparado para o ano que vem?

A: Talvez tenhamos algum amistoso no começo do ano, logo após o jogo da seleção brasileira. Mas não sei ao certo, isso é coisa da diretoria e ainda não está nada definido. Esse amistoso vai servir para fazer o trabalho final, a off-season, preparando o time para o paranaense, que tenho total certeza que é o campeonato estadual mais disputado do Brasil. Mas já conhecemos os times daqui, já sabemos como eles jogam, e para 2012 a história vai ser bem diferente.

R: Vários jogadores e até membros da diretoria, principalmente o vice-presidente Ricardo Ribas, disseram em várias entrevistas que 2011 seria um ano de “preparação”. O que seria essa tal preparação?

Allan Meister também é árbitro, federado pela FPFA

A: Como nosso time surgiu da junção de dois outros, existe um favor preponderante que é o entrosamento. Só que para um esporte tão metódico como o nosso, o entrosamento não é única e exclusivamente dentro de campo. É a relação entre atletas, é a conduta deles em treinamento, até mesmo a própria convivência entre eles. Muitos atletas no começo – ano passado principalmente – só se conheciam dentro de campo. Não tinham aquele convívio, aquele vínculo que, naturalmente, o tempo cria. Então uma parte da preparação é essa: estreitar arestas, fortalecer vínculos. E também a lapidação dos novos valores que apareceram em 2011. Não vou dizer que esses valores já estão prontos, eles só acenderam a faísca. A partir de agora toda conduta depende única e exclusivamente deles, da dedicação deles, do treinamento deles. Fiz o máximo para transmiti toda base e todo extracampo que eles precisavam. E continuo fazendo ainda, porque acho que ninguém aprende tudo. Então essa “tecla da preparação” que eles bateram, na minha visão como técnico, é em relação aos novos valores. A partir desse ano a experiência deles será muito maior. E essa experiência reflete diretamente no resultado. Então é por isso que nossa expectativa é muito boa, aliada a alguns atletas que ficaram o ano de 2011 inteiro sem jogar devido a contusões. Alguns atletas também estão retornando: tinham dois titulares da minha linha ofensiva que estavam morando fora de Ponta Grossa e que estão voltando. Pode não parecer nada, mas a linha ofensiva é o que faz o ataque andar. Essa mesma linha ofensiva que voltará no próximo ano ficou seis jogos sem ceder um sack – isso em 2010. Então tudo é questão de unir o entrosamento entre esses novos valores e todo esse pessoal que ficou de fora em 2011 para deixar o conjunto mais forte ainda. Também tivemos muitas mudanças: novo playbook, novo quarterback, novo pensamento… Antes tínhamos muito o pensamento do eu. Agora não existe mais isso. Agora é o “nós”, e o que quer dizer isso? Tínhamos muitos problemas de ego. Jogador que no passado foi uma estrela, um referencial, e que o tempo foi implacável. Eu sou um exemplo de quando uma lesão pesa, ou até mesmo a própria idade. Pode até parecer besteira falar de idade, mas a vida útil de um jogador de futebol americano é muito baixa. Passar dos 30 anos jogando bem é extremamente raro. Enfrentamos esse problema de ego, que logo que assumi o comando da equipe, em maio, fiz questão de acabar. E devido a esse pensamento muitas pessoas me chamaram de autoritário. Mas com o passar do tempo eles viram que de autoritário eu não tenho nada. Sempre procuro ter uma relação saudável com eles: antes de oprimir, eu converso. Então você só vai escutar mesmo na sua orelha se você faz tudo errado.

R: Você foi chamado para a seleção sem ganhar nenhum jogo, só depois que isso aconteceu é que a equipe passou a vencer. Por que você acha que foi chamado mesmo sem uma única vitória?

A: [Acredito que fui chamado] Não por agora, mas pelo meu histórico no esporte. Não digo só como jogador, mas desde que comecei a jogar – em 2001 – meu pensamento nunca foi só em mim, nunca foi só em satisfazer meu gosto pessoal por um esporte que é meu preferido. Meu pensamento sempre foi em fazer com que o FA crescesse, não só em Ponta Grossa. Essa sempre foi minha luta, de acabar com aquele preconceito que as pessoas têm de aliar o futebol americano a um esporte violento, de achar que é só brutalidade, um cara pulando em cima do outro e querendo se machucar. Quem conhece o esporte a fundo sabe que é exatamente o oposto disso. Como costumo dizer: é o esporte mais democrático que existe. Se você é magrinho ou se é gordinho, se é alto ou se é baixo, aqui tem lugar pra você. E ao longo desses anos fui um entusiasta do esporte, batalhei, me dediquei, corri atrás. Tudo que sei eu não devo a ninguém, aprendi por conta própria. E acho que a seleção brasileira foi um reflexo dessa minha “carreira” (aspas dele), como atleta, como jogador. Em 2009 tive uma lesão muito grave, rompi o ligamento lateral do joelho direito e fiquei 22 meses sem correr. Nesse tempo procurei me aperfeiçoar ainda mais no extracampo. Eu não era técnico antes disso. Nesse meio tempo também me envolvi com arbitragem, pois, assim como o esporte crescia, era preciso de alguém no comando dos jogos. Aí comecei a apitar jogos e fazer clínicas de arbitragem, até que me federei como árbitro aqui no Paraná. E continuei estudando a regra do jogo, estudando detalhes do jogo. Após a união dos dois times vi que com o que já sabia eu poderia auxiliar de uma maneira extremamente positiva a nova equipe. E continuei estudando, aprendendo, comprando livros… Logicamente tudo de fora, porque aqui não tem nada. Minha indicação da seleção brasileira foi… Até eu mesmo não sei diretamente, mas acho que foi um reflexo desse meu histórico como jogador, como entusiasta, como árbitro, como uma pessoa que quer ver o esporte cada vez maior.

R: Falando agora sobre o campeonato paranaense de 2012: segunda-feira (05/12) aconteceu uma reunião com membros da FPFA [Federação Paranaense de Futebol Americano] para decisão de alguns pontos do campeonato. Já foram passadas para você algumas dessas decisões… como quando vai começar o campeonato, ou alguma coisa mais específica?

A: Tenho uma postura dentro do time de que eu não me envolvo com nenhum fator extracampo ou fator político. Tudo que sei é passado do presidente para mim que, na cadeia do comando, sou um cara abaixo dele – excluindo os outros da diretoria. Não posso te garantir a veracidade dessas informações, mas até onde eu sei nem tabela e data foram definidas. Só sabemos que será de março a maio. O que sei é que foram confirmados sete times. Nós teremos uma equipe nova – que é o Legends [UFPR Legends, de Curitiba] – além dos outros seis times do campeonato passado. O formato do campeonato já está definido, não existem grupos. É um grupo único, todos contra todos em turno e returno. Já os critérios de definição de playoffs – se teremos playoffs ou se já será a final direto – isso ainda não tive acesso. Creio que após os treinamentos da seleção sejam definidos todos esses detalhes do campeonato.

R: Recebi uma informação que todos os times relacionados à Federação Paranaense terão que participar do campeonato brasileiro organizado pela AFAB [Associação de Futebol Americano do Brasil] em 2012, não podendo entrar em outra competição. Até que ponto isso é verdadeiro?  O Phantoms terá que deixar o Torneio Touchdown ano que vem?

A: Não sei ainda, não tenho nenhuma informação oficial quanto a isso. Tanto que conversei com o presidente e ele não me passou nada oficial. Então vou deixar para que, no treinamento da seleção, o próprio presidente da AFAB, se possível, me passe essa informação. Até agora não sei de nenhuma informação oficial quanto a isso. Eu sei que já está confirmado o campeonato da AFAB e o Torneio Touchdown. Mas os critérios, os empecilhos, os incentivos, eu não sei informar nada quanto a isso porque, creio eu, que tudo que vocês tiverem de informação agora seja especulação. Até onde eu sei não existe informação oficial quanto a isso.

R: Existe mais alguma coisa que você gostaria de falar ou que gostaria de esclarecer? O espaço está aberto.

Mesmo na sideline, técnico não tira equipamentos para comandar o time

A: Nesse ano de 2011 muitas pessoas duvidaram do nosso potencial. Tanto que tínhamos muitos entusiastas que nos acompanhávamos há algum tempo que, a partir do momento em que só derrotas faziam parte do nosso dia-a-dia, essas pessoas simplesmente nos abandonaram. Então fiquei extremamente chateado com isso. Diferente de vocês, que sempre estão incentivando, obtendo informações, divulgando o nosso time. Esse “abandono” [aspas dele] que tivemos da mídia daqui, pessoalmente, me deixou extremamente chateado. Sei que essas mesmas pessoas em 2012 voltarão a divulgar nosso nome, vão querer fazer entrevista, vão querer saber alguma coisa de um dos técnicos da seleção brasileira. O recado que deixo é que essas pessoas, assim como nos abandonaram, de minha parte não faço questão nenhuma que nos apoiem novamente, porque nós conseguimos fazer com que esse segundo semestre se tornasse um ano positivo graças a nós e a vocês que nos incentivam. Não precisamos de pessoas que só queiram estar ao lado quando tudo está bem. Nesse ponto creio que já conseguimos criar um padrão e levar nosso time dessa maneira, fazer com que o time dependa única e exclusivamente dele próprio. Isso eu estou dizendo em termos de cabeça, dentro de campo. Mas uma coisa que sentimos muita falta, que pedimos encarecidamente, é o apoio da iniciativa privada. Somos uma equipe que viaja o Brasil divulgando o nome de Ponta Grossa, e muitas vezes nos deparamos com situações desagradáveis. Quando vamos em busca de… não de um patrocínio, mas de uma ajuda qualquer, simplesmente as portas se fecham. Primeiro pelo preconceito com o esporte, depois pela pessoa não conhecer. Então o que eu pediria é que, principalmente a iniciativa privada, olhasse com outros olhos tudo o que fazemos pela nossa cidade. O que o esporte representa para a sociedade, o benefício que ele traz para a juventude, o que ele desperta na cabeça das pessoas. O que peço não é incentivo material, não é apoio financeiro, não é que eles nos dêem dinheiro. Mas as vezes… por exemplo: no jogo para Niterói tivemos que bancar um ônibus que custava cinco mil reais. Dividido entre os atletas que foram, saiu entre 150 e 170 reais para cada um. Eu tive três ou quatro casos de atletas que não tinham condições de ir, que simplesmente os demais atletas ajudaram cada um com um pouco e só assim eles viajaram. Acho que nossa organização é muito maior que muito esporte que recebe apoio do poder público. Então um incentivo, por menor que seja, pode fazer um diferencial com melhor desempenho, para reter os atletas no time. Já temos despesas desde quando entramos para a equipe que é adquirir equipamentos. Nem todas as pessoas têm condições de bancar tudo. A diretoria procura ajudar da melhor maneira possível, mas nem todos conseguem. Então que peço é que a iniciativa privada nos olhe com outros olhos e pelo menos deixem esse preconceito de lado. Que vejam que nosso esporte não é um esporte que incentiva a violência. Muito pelo contrário: ele une pessoas, estreita laços de amizade, tira jovens de um caminho tortuoso, onde eles enxergam no esporte uma oportunidade de construir uma carreira como atleta. Não digo viver disso, porque aqui no Brasil a gente tem consciência de que seremos amadores devido a nossa cultura. Mas só uma carreira como atleta dignifica todo mundo. Fui lutador durante 12 anos e tenho muito orgulho de falar que fui um atleta de ponta. Acho que isso vale também pelos jovens de agora e esse incentivo que peço não é nem tanto por mim, e sim para esses novos valores, para fazer com que esses valores não sumam, que a gente não perca esse grande potencial que esses jovens têm pelo simples fato de você não ter uma condição mínima para oferecer para eles nos treinamentos, nos jogos e no esporte em si.

Imagens: acervo pessoal Allan Meister

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Imparcialidade não é aqui, chefe.

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