DR. SÓCRATES

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Se você pedir para qualquer Corinthiano montar uma equipe de todos os tempos, Sócrates com certeza estará lá, no meio ou no ataque, mas ele estará lá. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira não era nome de jogador de futebol. Nem porte físico ele tinha: era alto, desengonçado e magro. Além do quê era mulherengo, bebia muito, freqüentava botecos em São Paulo e não gostava  de treinos e concentração.

Para compensar a falta de preparo físico, só tocava a bola de primeira, fato que despertou o interesse do Botafogo (clube de Ribeirão Preto). Nesse time ele foi campeão do 1º Turno do Campeonato Paulista de 1977 e artilheiro do campeonato. Também se destacou no Campeonato Brasileiro, autor de um célebre gol de calcanhar contra o Santos em plena Vila Belmiro.

Sócrates se firmaria no Corinthians em 1978 onde fez uma dupla espetacular com seu amigo Casagrande. Em 79, estreou na seleção brasileira em 15 de maio. Ele disputou a Copa América (também em 83) e o Mundialito, ficando no time titular até o Mundial na Espanha, em 1982, quando formou com Zico, Falcão e Cerezo o quadrado mágico que encantara o planeta, apesar de o Brasil ter sido derrotado. De volta ao clube alvinegro, o Doutor (nome que ele recebeu em função do título universitário e pelo fato de saber tudo de bola) fez a equipe conquistar o campeonato estadual.

Poucos jogadores foram tão geniais e habilidosos como Dr. Sócrates

Por vê-lo fazer jogadas magistrais com o calcanhar, o Magrão recebeu de Pelé um comentário curioso: “Ele joga melhor de costas do que de frente”. A essa altura, o Doutor era procurado por emissários europeus querendo levá-lo, todos a verem nele um craque que efetivamente aplica a inteligência. Todavia, Sócrates (com 302 jogos e 166 gols pelo Timão)  teimava em ficar no Brasil. Sua maior contribuição para a história do futebol, não foi trilhada só dentro de campo, ele tornou-se o maior pensador do futebol brasileiro, ao liderar o movimento conhecido como Democracia Corintiana, que mudaria para sempre a história do clube paulistano e a própria história de vida de cada um dos jogadores envolvidos.

Para os que não lembram (ou não eram nascidos), a Democracia Corinthiana foi à aplicação, no futebol, de uma espécie de autogestão, que resultou nos títulos paulistas de 1982 e 1983. Depois de forte pressão política exercida pelos atletas, jogadores, comissão técnica e diretoria passaram a decidir, no voto, tudo o que fosse de interesse para o clube: contratações, demissões, escalação da equipe, data e local de concentração e outras coisas que, antes, cabiam somente aos cartolas. Tudo era resolvido no voto.

Mas, no começo, a convivência entre jogadores e imprensa não foi das melhores, como lembra Sócrates em uma passagem do livro “A Utopia em Jogo” (Editora Boitempo): “Durante a Democracia Corinthiana, existiu um processo ideológico por parte dos veículos de comunicação mais conservadores a fim de rotular nosso movimento como um sistema frágil perante a opinião pública. Alguns sentiam a necessidade de fazer isso, até porque a Democracia Corinthiana passou a ter um peso na história do país, no processo de democratização pelo qual passava o Brasil”.

Luta pela eleição livre e com firme posição ideológica

A Democracia começa a morrer quando Sócrates deixa o Corinthians para jogar na Fiorentina, na Itália. Sua ida, porém, não atende a interesses financeiros ou pessoais. Um mês antes da emenda das eleições diretas para presidente ser votada na Câmara, o jogador corinthiano, no palanque dos artistas, intelectuais e políticos que pediam “Diretas Já”, declara publicamente que, se a emenda não fosse aprovada pelo Congresso Nacional, ele deixaria o Brasil.

Em 1984, a emenda é reprovada, o brasileiro continua proibido de eleger seus principais mandatários, e Sócrates deixa o Brasil, cumprindo a promessa.

Na Copa do Mundo de 1986 estaria novamente em ação, mas já fora de forma ideal. Ficaria ainda marcado pelo pênalti desperdiçado contra a França na decisão que desclassificou o Brasil.

Depois de uma rápida e decepcionante passagem pelo Fiorentina, prejudicado pelos companheiros de quem suspeitava que manipulassem resultados, Sócrates retornou ao Brasil para encerrar a carreira aonde atuaria ainda no Flamengo,Santos e no Botafogo de Ribeirão Preto.

Jogadores com a verdadeira alma Corinthiana estão cada vez mais escassos, jogadores que davam, literalmente, o sangue pelas cores preto e branco. Estamos a espera de novos Sócrates do futebol.

Por Gustavo Dornelles – @guusd

Fotos: blog.maismemoria.net

3 responses »

  1. Dhiego Tchmolo

    Muito bacana sua matéria, gostei mesmo.

    Só uma correção, a decadência da Democracia Corintiana não começou com a saída de Sócrates e sim em 1983 com a pressão de Vicente Matheus e do goleiro Leão.

    O Magrão jogou muito tempo sobre essa decisão, até que foi para a Fiorentina.

    No resto, só tenho que parabeniza-lo, assim como todo o blog que eu leio e vejo muito potencial.

    Abraços!

    Responder
    • Augusto Travensolli

      Muito bom o texto. Mostrou o que o Sócrates foi e o que ele representou para o futebol brasileiro e principalmente Corinthiano. Apesar de Palmeirense reconheço sua importância dentro do futebol

      Como parte daquela geração de 82 que era fantástica, só não é mais lembrado devido a eliminação precoce para a Itália naquele jogo em que o Rossi marcou três.

      Certamente essa seleção seria mais lembrada e reconhecida se ganhasse um título, e não tenho dúvidas ficaria lembrada como a Espanha de 2010.

      Responder
  2. Grande Dr. Sócrates um cara de uma elegância e inteligência sem tamanho, até por isso, era santista! HAHA
    Bela matéria gus, abraço

    Responder

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